Açaí: O “ouro roxo” do coração amazônico
Com a crescente demanda em relação ao consumo de açaí, as produções aumentaram significativamente nos últimos anos
Por Hanna Kauanin
O fruto do açaí | Foto: Paralaxis/Reprodução
O Brasil é um país de tamanho continental e conhecido por sua gastronomia diferenciada em cada um de seus estados. Guaraná, coxinha, brigadeiro, acarajé e outros alimentos se tornaram típicos e famosos. Porém, uma fruta que nasceu no interior da floresta amazônica começou a ganhar destaque, não apenas nacional como internacional. Nas décadas de 80 e 90, o açaí saiu de sua zona amazônica e chegou a outros estados brasileiros. Mas é apenas nos anos 2000 que o fruto se torna uma iguaria internacional, principalmente nos Estados Unidos e continentes como a Europa e Ásia. Sua fama se deve justamente para a diversidade com que o alimento pode ser consumido.
Durante os últimos 5 anos, o consumo do açaí aumentou 70% de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O motivo do crescimento é justamente no sucesso atual que a fruta amazonense está tendo no paladar da população brasileira. Além da alimentação, o açaí também é reconhecido pelo benefício na saúde, o que pode acabar fazendo com que as pessoas o procurem para além de apenas se alimentar.
O fruto apresenta ações anti-inflamatórias e melhorias nas condições psíquicas, além de ajudar na prevenção de doenças crônicas, que podem a um primeiro momento estar associadas com o estresse oxidativo, de acordo com o estudo “Revisão de literatura sobre sobre os efeitos terapêuticos do açaí e sua importância na alimentação”, de Leandra Velasque.
Entre os países que mais consomem a exportação do fruto, os Estados Unidos da América lideram o ranking, já no ano de 2018, sendo 40% do consumo daquele período. Em seguida vêm países como Austrália, Japão, Alemanha, França, Bélgica, Holanda e Portugal.
A forma de consumo brasileira e estrangeira quanto ao fruto também é diferente, no Brasil, é comum comer o açaí junto às refeições ou como uma sobremesa com acompanhamentos. Enquanto para os públicos internacionais, como nos EUA por exemplo, o açaí é consumido como shakes, smoothies ou suplemento alimentar, sem acompanhamentos conhecidos no Brasil, granola, linhaça, farinha de tapioca e etc.
Foto: Kar3k4/Reprodução
Produção de açaí:
Antes de se tornar um “fenômeno”, a produção de açaí era voltada para as regiões em que o fruto era um dos pilares de alimentação. Os dois maiores estados produtores são: Pará, em que sua produção no ano de 2024 alcançou 96% e Amazonas, com cerca de 2,7%. Apesar de ser utilizado também pelas populações tradicionais, a maior base da produção do açaí é feita por meio de diversas plantações. Enquanto no ano de 2021, pelo extrativismo (uma atividade de extração dos recursos naturais diretamente do ambiente em que ele está, para a utilização do homem) foram 227,3 mil, o que representaria apenas 13,3% de toda a produção nacional.
Apesar de ser mais comum as plantações na região norte do país, o nordeste representa 1,5% da produção, enquanto o norte representa 98,4%. No ano de 2023, a produção do fruto atingiu cerca de 1,5 milhão de toneladas, o que representou um aumento de 10% em relação ao ano de 2022. No mesmo ano, o Pará foi responsável por 90% da produção.
Com o crescimento do alimento no mercado externo, as exportações começaram a se tornar parte das comercializações do fruto. Em 2023, o Brasil foi responsável por mais de 20 toneladas de açaí exportadas, o que resultou em uma receita superior a US$100 milhões. No ano de 2024, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), informou que a exportação de açaí aumentou 47,5% de faturamento, alcançando por volta de US$500 mil com 89 toneladas, sendo um crescimento de 12,7%.
Enquanto isso, as produções para o ano de 2025 são otimistas pelos produtores. A projeção é de que o mercado global de açaí continue crescendo, entre 8% a 10%, o que pode ultrapassar US$1,96 bilhão até o ano de 2028, com a taxa de crescimento anual.
Porém, as produção não apenas tiveram um impacto de recursos, mas também na forma como os indivíduos de uma sociedade se relacionam com a colheita e o aproveitamento do fruto. Sejam eles, os próprios produtores (de grandes fortunas ou pequenas), as populações indígenas e ribeirinhas e os trabalhadores.
Comunidades indígenas e a importância da fruta:
Antes de uma fruta popular ser um dos principais pratos na alimentação nortista e como uma espécie de “sorvete diferenciado” para o resto da população brasileira, o açaí é uma parte importante não só da alimentação para as etnias indígenas, mas também faz parte do centro cultural para elas.
Foto: Wagner Okasaki/Reprodução
Sua história se inicia com a origem do açaí para essas populações com tronco tupi. Uma aldeia sofria de muita fome e assim, para evitar que novas crianças nascessem e houvesse mais bocas para alimentar, o cacique mandou que todo bebê recém nascido fosse morto. Mas, a filha do líder, Iaçã, acabou engravidando e dando a luz a uma criança, porém, a sua ligação com o cacique, não fez com que seu destino fosse diferente das outras mães.
O bebê dela foi sacrificado e Iaçã chorou por dias, implorando para Tupã (deus tupi que controla os raios e trovões) que lhe mostrasse outra forma de salvar o seu povo da fome. Em uma noite, Iaçã acabou ouvindo o choro de criança e viu a sua própria filha em uma palmeira diferente das conhecidas por eles. A mulher correu para abraçar a própria filha, porém quando isso aconteceu, o bebê acabou sumindo. Iaçã chorou até a morte.
No dia seguinte, a aldeia procurou-a e encontrou Iaçã agarrada à palmeira que abraçou ao achar que era a sua filha. Mas agora, a planta tinha um fruto diferente, eles eram escuros e pequenos, como os olhos da mulher.
Iaçã encontrada abraçada ao açaí | Foto: Blog da BioPoint/Reprodução
As sociedades indígenas perceberam que a fruta ia muito além de sua alimentação, a prática está ligada à forma de vida e como eles lidam com seus territórios. Porém, os nativos costumam realizar o cultivo e a extração na região Norte, com boa parte na floresta Amazônica. Além do Amazonas e Pará, os estados como Rondônia, Roraima, Amapá e Tocantins que tem forte presença indigena, também ajudam nas produções. Esse cultivo é realizado nas próprias terras indígenas, que somam 13% do território nacional na Amazônia Legal, contando com 238 povos.
De acordo com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), existe a presença do cultivo de açaí, por exemplo, na terra indigena Alto Rio Guamá (PA) e, nas aldeias Kwazá e Aikanã, em Rondônia.
Para essas sociedades, o açaí não é apenas um fruto a ser consumido, ele é a existência, resistência e conexão ancestral. A polpa do fruto é consumida de forma diária, que pode ser pura ou com acompanhamentos (farinha de mandioca, peixe, ou carne). O que acaba fornecendo a energia e os nutrientes necessários para a sobrevivência, garantindo a segurança alimentar das comunidades, ainda mais em períodos de escassez de outros recursos, como ocorreu na lenda de origem. O fruto representa a abundância na floresta, o saber do manejo tradicional e a continuidade de um modo de vida em harmonia com a natureza.
Com isso, o etnodesenvolvimento surge para ajudar as comunidades a realizarem o trabalho. Ele é um modelo de desenvolvimento que foi idealizado e implementado pelos próprios indígenas, com base em suas culturas, valores, conhecimentos tradicionais e as suas próprias realidades. Buscando a autonomia e o protagonismo, junto ao bem-estar e a sustentabilidade de acordo com as visões que eles têm de futuro. Não sendo baseado em modelos e formas externas.
Então, essa conexão cultural profunda e aliada ao crescente valor econômico do açaí, impulsiona o etnodesenvolvimento. O fruto torna-se uma alternativa para a autonomia e a geração de renda nas aldeias, permitindo investimentos em educação, saúde e infraestrutura, sob o protagonismo e a governança das próprias comunidades indígenas. Projetos como os apoiados pela Funai e parcerias sustentáveis reforçam o valor do manejo indígena, transformando o açaí em um exemplo de como o desenvolvimento pode ser construído a partir das culturas e para o benefício de quem o produz.
Foto: Fernando Fileno/Reprodução
Açaí e a biodiversidade:
Popularmente conhecida como açaização, a produção do fruto pode acabar empobrecendo os ecossistemas ao substituir a diversidade natural pelas plantações. As áreas de várzea e igapó (região da floresta Amazônica que permanece alagada mesmo na estiagem dos rios) é onde o açaí cresce. Normalmente, tucanos, araras, macacos, antas e os insetos polinizadores estavam, convivendo, antes em harmonia.
O manejo sustentável, praticado há séculos por povos indígenas e ribeirinhos, é a chave para a coexistência. Ao integrar o açaí em sistemas agroflorestais que preservam a variedade de espécies e os serviços ecossistêmicos, existe uma provável garantia de que o crescimento do açaí continue a ser uma fonte de riqueza sem sacrificar a biodiversidade amazônica.
Para que consigam produzir a polpa, que é o produto comercializado do açaí, ele deve ser batido em equipamentos específicos. Com o caroço, muitos acabam os jogando em vias públicas ou em lixões, o que pode acarretar em assoreamento e na contaminação de igarapés, riachos e outros meios d’água.
Foto: Brasil2/Reprodução
O pesquisador agrônomo Moisés Mendonça comenta que o açaí é muito importante para o Pará, gerando renda e riqueza para o estado, mas que quando se olha o lado ambiental, fica claro o quanto essa produção agride o meio ambiente local. Além disso, ele também comenta que onde quer que exista agroindústria familiar ou uma grande produção, pode se encontrar os vestígios do caroço. Os problemas vão além do visual.
Além de consequências ambientais provocadas pelo lucro entre empresas, pequenos agricultores e a população que ajuda nas colheitas, descartes inadequados de resíduos ajudam a prejudicar o ambiente à sua volta. Por conta disso, diversos produtores começaram a pensar nas soluções alternativas que poderiam ajudar a resolver o problema.
Monopolização:
Com o crescimento global e deixando de ser um alimento para consumo local, o açaí se tornou uma commodity (tipo de bem ou produto primário, que em seu estado bruto, com pouca ou nenhuma industrialização é produzido em larga escala e possui características padronizadas) global. O que atraiu investimentos de grandes empresas do setor de diversos setores, inclusive o de alimentos e bebidas.
A "industrialização" do açaí, embora possa garantir padrões de qualidade e acesso a mercados distantes, cria um desequilíbrio. Produtores menores, incluindo as comunidades indígenas, frequentemente se vêem na ponta mais fraca da cadeia, lidando com intermediação excessiva, onde vendem o açaí natural a preços baixos para outras pessoas.
Isso gera uma dependência econômica, pois a falta de estrutura para processamento e comercialização própria limita a capacidade de negociação e apropriação dos lucros. Além disso, a volatilidade de preços no mercado de commodities torna esses pequenos produtores mais vulneráveis às quedas.
Para os povos indígenas, a monopolização do açaí é uma ameaça à sua autonomia e ao seu modo de vida, intrinsecamente ligado ao fruto. As comunidades perdem o controle sobre as condições de venda e o destino de um produto central para sua cultura e subsistência. Em alguns casos, a busca por volume pode levar a relações de trabalho pesado, no qual a mão de obra indígena é desvalorizada.
Mudanças climáticas e a produção:
Apesar do crescimento de consumo, as mudanças climáticas que passaram a ocorrer com mais intensidade a partir de fenômenos como o El Niño, também prejudicam a produção do açaí.
No ano de 2024, foi o ano de menos chuvas no Pará, que é o maior produtor e principal produtor do fruto no Brasil, o que consequentemente afetou a safra e em seguida a produção. Além disso, para o ano de 2025, a entressafra pode ser maior do que a esperada pelos produtores, devido às condições climáticas, que para as regiões variam entre seca prolongada e calor extremo. O que acaba comprometendo o desenvolvimento do fruto e consequentemente na oferta e nos preços.
Na ilha de Marajó, onde parte da produção do açaí é de 25%, já no ano de 2018 parecia estar sendo prejudicada com as mudanças climáticas. Segundo a Secretária de Desenvolvimento Agropecuária e da Pesca do Pará (Sedap), a subida do nível do mar, aumento do sal na água e as mudanças meteorológicas, as produções podem ser prejudicadas. Cerca de 14 mil pessoas, o aumento da água pode ser de 10cm, de acordo com as projeções do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
Infográfico do Embrapa | Reprodução
As alterações nos padrões de chuva e temperatura, cada vez mais frequentes e intensas, podem acabar impactando diretamente a produção, com consequências severas para a economia local, a segurança alimentar das comunidades e o mercado global. Até 2050, essas mudanças climáticas, como o desmatamento desenfreado, pode acabar provocando o desaparecimento de 15 espécies de palmeiras e outras árvores que são cultivadas em reservas extrativistas, perdendo entre 1% a 70%, o que inclui a árvore do açaí.
A consequência do nível de aumento do mar, também vem pelo gosto do açaí, pelo fruto da ilha Marajó também nascer próximos às áreas de várzea e pegar os seus nutrientes do local, a água se tornar mais salgada pode deixar o açaí do mesmo jeito, como informa o professor Alexander Turra, da USP ao jornal Eco.
De acordo com um rapaz que trabalha com a coleta do açaí, Pedro Nunes, as safras também já não são grandes como costumavam ser. O caroço diminuiu e mudou demais, antes chovia e conseguiam aproveitar, mas com o passar dos dias sem chover, o açaí seca e se acaba chovendo demais, isso também gera um problema. Os produtores dependem muito da natureza.
Enquanto isso, para a região, o governo do Pará tem investido no cultivo térreo do açaí, tentando atender às demandas do mercado externo e interno. E para não perder as produções, estão sendo criadas novas pesquisas para as novas plantações alcançarem novos lugares, com o projeto de Zoneamento Agrícola de Risco Climático, ajudando o produtor a pesquisar quais lugares teriam as melhores condições para esse novo plantio.
Com as mudanças climáticas, biodiversidade em jogo e também o etnodesenvolvimento de sociedades indígenas ajudando na produção do fruto, há preocupações para a sustentabilidade da região e do planeta. De acordo com Salo Coslovsky, o mercado atual do açaí deve ser aproveitado para o melhoramento das regiões que ele é produzido, inclusive na ilha de Marajó.
Para que políticas públicas consigam sustentar o meio ambiente e a produção que gera o dinheiro e o lucro dessas famílias. Apenas um local com uma concentração de plantações inteiras pode acabar gerando diversos problemas futuros, as mudanças climáticas sendo apenas algumas delas.
Comments
Post a Comment